Acessibilidade digital nas empresas precisa fazer parte da estratégia desde o início
Na mídia
A acessibilidade digital vem ganhando espaço nas discussões sobre experiência da pessoa usuária, inovação e estratégia empresarial. Mas, para que ela realmente faça parte dessas áreas, não basta considerar a acessibilidade quando um produto, uma campanha ou uma experiência já está pronto.
Esse foi um dos principais pontos levantados por Simone Freire, diretora da Espiral Interativa e idealizadora do Movimento Web para Todos, durante uma live promovida pelo Valor Econômico no dia 23 de setembro com o tema “Como a acessibilidade pode transformar produtos, conteúdos e negócios”. A conversa, que foi mediada pela jornalista Bianca Guilherme, também contou com Caio Ramos, especialista em programação da TV Globo.
Ao longo da conversa, foram abordados temas como o papel da acessibilidade digital nas empresas, a relação com pessoas consumidoras com deficiência, os impactos para os negócios e os desafios de incorporar acessibilidade ao desenvolvimento de novas tecnologias.
Acessibilidade digital também é estratégia de negócio
Um dos pontos de partida da conversa foi justamente a percepção de que a acessibilidade ainda costuma ser tratada como uma obrigação legal ou como uma iniciativa relacionada exclusivamente à inclusão.
Para Simone, essa visão é limitada. A acessibilidade digital precisa ser considerada também dentro da estratégia das empresas, especialmente quando pensamos em produtos, serviços, conteúdos e experiências digitais.
Caio Ramos reforçou essa perspectiva ao relacionar acessibilidade com audiência, valor de marca e valor de negócio. Segundo ele, pessoas com deficiência também representam um público consumidor que precisa ser considerado na estratégia de produtos e conteúdos.
Essa mudança de perspectiva ajuda a ampliar a pergunta. Em vez de pensar apenas se determinada solução pode ser acessada, é preciso considerar quem está sendo incluído na experiência e quem pode estar ficando de fora dela.
Pensar em acessibilidade desde o início evita retrabalho
Para Simone, um dos principais problemas acontece quando a acessibilidade entra apenas no final de um projeto.
Uma campanha pode ter sido planejada, um produto desenvolvido ou uma jornada de e-commerce estruturada e, só depois, a equipe perceber que aquela experiência apresenta barreiras para pessoas que utilizam recursos de tecnologia assistiva ou possuem diferentes necessidades de acesso.
Simone reforçou que pensar em acessibilidade desde o início também evita retrabalho. Quando a preocupação aparece só no final de uma campanha, produto ou experiência, corrigir as barreiras pode exigir mudanças em algo que já foi desenvolvido.
Essa lógica também se relaciona à participação de pessoas com deficiência no desenvolvimento de produtos e experiências. Como destacou Caio, combinar normas e diretrizes com usabilidade e testes com pessoas que enfrentam barreiras é fundamental para chegar a uma experiência realmente inclusiva.
Quando inclusão não chega à experiência
Outro ponto compartilhado na live foi a diferença entre o discurso de inclusão e a experiência que uma empresa efetivamente oferece.
Uma marca pode desenvolver uma campanha voltada para pessoas com deficiência e, ao mesmo tempo, disponibilizar essa campanha em uma página ou plataforma que apresenta barreiras de acesso.
Esse tipo de situação mostra por que a acessibilidade não pode ficar restrita à comunicação ou a uma etapa isolada do projeto. Ela precisa estar presente na construção da experiência como um todo.
Também por isso, a participação de pessoas com deficiência nas equipes, nos processos de desenvolvimento e nos testes pode contribuir para identificar barreiras que talvez não apareçam quando um produto é pensado apenas a partir de uma perspectiva.
Inteligência artificial e acessibilidade digital
A discussão chegou ainda à inteligência artificial, um dos principais desafios atuais para quem trabalha com tecnologia e produtos digitais.
A IA pode ajudar na criação de recursos e soluções mais acessíveis, mas isso não significa que toda tecnologia desenvolvida com inteligência artificial será automaticamente acessível.
Caio destacou que a inclusão de pessoas com deficiência no desenvolvimento dessas tecnologias é essencial. Já Simone trouxe uma provocação ainda mais ampla. Se a IA for desenvolvida a partir de um ambiente digital que ainda apresenta muitas barreiras, existe o risco de reproduzir e ampliar esses problemas em uma escala muito maior.
Por isso, segundo ela, a acessibilidade também precisa fazer parte da forma como usamos esses recursos, inclusive nos prompts, agentes e processos de criação de produtos digitais.
É uma discussão que ganha importância à medida que a IA passa a participar de cada vez mais etapas do desenvolvimento de conteúdos, serviços e experiências digitais.
A pergunta que pode mudar o início de um projeto
No encerramento da conversa, Simone deixou uma única pergunta para orientar quem acompanhou o papo a ter uma atitude diferente daqui para frente.
Ao pensar em uma nova campanha, produto ou experiência, ela propõe que as equipes façam essa reflexão desde o início do projeto: “Quem pode ficar de fora se eu fizer desse jeito?”
A pergunta desloca a acessibilidade para um momento anterior ao desenvolvimento da solução. Antes de pensar apenas em como corrigir uma barreira, ajuda a refletir sobre quais pessoas, experiências e necessidades estão sendo consideradas na própria concepção.
E essa mudança pode fazer diferença não apenas para pessoas com deficiência, mas para a experiência de diferentes públicos.
Como Simone e Caio discutiram ao longo da live, acessibilidade, experiência, diversidade e estratégia de negócio podem fazer parte da mesma conversa.
Quer entender melhor os pontos abordados por Simone Freire e Caio Ramos? Assista à live completa do Valor Econômico pelo vídeo abaixo.
Conheça como a acessibilidade digital pode fazer parte da estratégia das organizações.
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